carta de amor

estou escrevendo uma carta de amor
álvaro de campos que me perdoe
toda reprodução acentuada
de sal saudade
manhãs engorduradas de esperas na varanda
na minha carta constam
linhas em papel opaco
de cabelos negros
de viagens para cartões postais
sorveterias e restaurantes
tem barulho de chuva
grande atração de domingos
pendurados no canto da casa
um encontro desfeito
e meu coração antiderrapante
para quedas entre uma e outra ilusão
vou enviar dentro de um envelope
sem qualquer possibilidade de
identificação destinada
na minha carta constará
que nos perdemos para sempre.

Pedro Stkls

felling

é difícil sentir dor
dentro do ônibus lotado
onde não cabe a dor
nem as unhas ruídas
redondinhas para o sofrimento
desço na parada de sempre
há tanta vida a ser contada
de todas as vezes que desci
na mesma parada
subo até o 16º andar do prédio
ponho a chave abro a porta
a solidão me bate na cara
flores murchas
apodrecem pétalas
dentro de um vaso de água imunda
é a inundação
há dias não paro
uso o mesmo sapato
e brinco de passar o tempo
subindo no ônibus lotado
onde não cabe a dor.

Pedro Stkls

azul celeste

um dia
houve um azul jogado
no alto da tarde
na porta da noite
e era quase um sorriso
o que ele sentia por dentro
se a gente fizesse um corte
na barriga daquele azul
a noite sairia
com aquela fila de estrelas
que sobem ligeiras
nas palavras mais bonitas do mundo
e escorrem com seus vários lumes.
acho que guardei aquele azul
nos meus olhos de lampião
e até chorei rios de azul
quando me dei conta
de que o horizonte
é o meu órgão de existir
e digo mais outra coisa
aquele azul era a poesia
escapulindo dos dedinhos de Deus.

Pedro Stkls

poema-sertão

o céu parece escorrer
como o mar que um dia
escorreu e beijou o sertão
e agora vive escondidinho
é um cacto de braços erguidos
prontos para aparar a chuva
é um galho seco
que floresce estrelas
o céu já beijou o mar
o mar já beijou o sertão
e aconteceu de acontecer
que o céu do sertão
é azul mais que o mar

Pedro Stkls

é preciso falar de poesia

eu não lembro como foi que a poesia entrou na minha vida. eu não lembro como foi que ela me olhou nos olhos e me levou. eu sempre conto a história de um poço que ficava no quintal da minha casa e que ali eu escrevi a palavra poesia de forma tímida com farelos de tijolo. aí eu falo de uma professora que quando leu meu primeiro poema e me disse que aquilo não era poesia e me deu um livro do mario quintana pra ler e aprender como se faz. anos depois eu descobri: a professora estava certa sobre quintana, sobre todo o resto estava errada. eu gosto de começar cada ciclo, cada novo passo dado me perguntando sobre esse meu encontro com a poesia, é como um ritual antes de entrar no palco. a verdade é que eu tenho muitas histórias sobre o meu primeiro encontro com a poesia, o motivo de vivê-lo que sempre foi o mesmo. eu gosto de contar histórias com aventuras poéticas, coisas sobre as quais ninguém nota por aí. alguém já pensou coisa como: qual o tipo sanguíneo da poesia? qual flor que ela se perfuma? qual mar que ela beijou na boca? eu tenho devoção por essas bobagens que enfeitam os corações, os versos contemplam esses abraços, abraços que chamo de desamarras de escrita. a poesia quer novos olhares, metáforas, histórias, personagens e tudo o que um abraço proporcionar. é preciso falar de poesia, é preciso sobretudo viver de poesia para aquecer os dias frios, arrumar os corações destroçados pela confusão dos dias.