choveu nas tuas duas cidades
de uma ponta a outra
queria ter estado com todas
as coisas que molharam
com cada cinematografia
astro meteorológica
uma pena foi não saber
que a previsão era de chuva
nas cidades que você fotógrafa
já é hora de decretar o fim do verão
das flores secas
da rachadura das terras dos rios
e um monte de coisas empoeiradas
de quantos em quantos séculos
chove nas tuas duas cidades
a primeira vez foi na aparição de Dalila
a segunda vez foi na existência dos anjos
a terceira vez você estava na cidade sertão
enquanto o rio-mar se molhava
pensei em escrever uma carta
e te contar como a cidade dançou na chuva
como no vidro do carro
a chuva desenhou uma alcatéia
e de repente já era uma cantoria de grilos
a gente nunca sabe qual desenho
a chuva pinga no vidro
choveu nas tuas duas cidades
e um passarinho se molhou
quando atravessou o céu.
Pedro Stkls