poema da libertação do rio

não tenho medo da palavra que corta o rio
que divide o rio em dois hemisférios
duelo de águas nas costas da maré
quantas vezes deixei de naufragar?
quantas vezes não vi o rio sobre o rio
e pensei ser um rio só?
isso é a porrada do mundo
da força do mundo sobre a miudeza
nos olhos que só procuram pelo pouco
a gente nunca sabe como funciona
o olho da esperança
a gente nunca conserta
um dente de leão
eu tenho medo é de velhas dores
ou de não entender que a poesia vai além da rima
eu tenho medo é de achar
que o rio não é libertação
que só pode lavar banhar molhar navegar
e outros verbos que só servem para a linguagem
repartir o rio vai além de passar a faca ao meio
repartir o rio com o sol
repartir o rio com a chuva
repartir o rio com a canoa
quer dizer sinônimo de poesia
você tem histórias com o rio?
imagine um cavalo correndo nas mãos da pororoca
imagine uma boiada indo em disparada no banzeiro
imagine que do rio o barro é uma jura de amor eterno
se o mururé disser que um dia foi uma estrela
acredite!
essa é uma história nascida do possível que a vida gera
o que você levaria do rio?
uma corrente de água
fenômeno raro das marés?
um Deus que fosse sujeito ao toque
a forma física do rio que nunca dorme?
eu vou repartir é a minha sede com o rio
eu vou repartir o meu tambor
em dia de santíssima trindade
do rio eu levo a fúria a alquimia o deserto e o universo
os seus pontos cardeais quero no poema
o seu santo remédio a sua visagem o seu nascedouro
o rio é poesia
acredite no que lhe falo
quem chorou o rio e o fez assim não foi Deus
quem chorou o maior rio do mundo foi um poeta

Pedro Stkls

o poema perdido

posso morar em qualquer parte
onde ao menos a gente se esbarre
como vênus e júpiter
sorrindo um para o outro
em novembro numa segunda 13
a olho nu quero ver
como você confere as horas
ou como cruza a esquina
ou como um fio do teu cabelo
sobre a calçada
deixa o dia mais dia
com você quero colecionar xícaras lascadas
como quem guarda cacos de vidros
que refletidos ao sol viram poemas
onde o mundo nos for casa
sempre será o outro lado do mar.

Pedro Stkls

quando o amor explode

sabe quando o amor explode
bem na nossa cara
como fogos de artifício
em pleno réveillon?
não conseguimos tocá-lo
acaba escapando pelos ombros
desce pelas costas e cai
ainda que pudéssemos dar dez passos
e livrar nosso corpo desse inchaço
você me olharia por cima dos óculos
arrumando as sobrancelhas
me diria que era melhor assim
não se sustenta uma quase chuva
como não se vive uma quase vida
prestes a virar morte definitiva
há dias desejo um relógio
que funcione no sentido contrário
onde o amanhã seja o ontem
e o ontem seja o dia anterior
nós dois iluminados de girassóis
abrindo os olhos ainda molhados do sonho
se sonha bem à dois
é um complemento uma ponte
que liga os pedaços
como esqueleto carne e sangue
há dias sustento a ilusão
de um relógio quebrado
que me ponha pra funcionar
com esses meus ponteiros
hipoteticamente falando: tem salvação morrer de amor?
em que lugar devo pôr
este coração destroçado?
devo fabricar meus próprios fogos
e atirar todos
em uma noite em que
eu me perca tanto de mim
a ponto de me perder do meu nome
na certidão de nascimento ou rg?
a gente perde o nome quando ama
a gente se batiza com a alma
de quem a gente ama
o que acontece depois?
meu coração explodindo no céu
você notaria aquele meu coração
que já nem funciona como antes?

Pedro Stkls

semieternos

gosto de mapas
de cidades
gosto das linhas
de fronteiras
gosto de saber
onde o mar começa
gosto do tempo
se faz verão
se chove na vidraça

carrego comigo
um livro sobre
uma menina que espera
do outro lado da porta
um leão adormecer
para poder enfim
atravessar o corredor
do outro lado da porta
ela conta ao leão
sobre suas impressões
da vida, o primeiro amor
e seu medo da morte

entro num café
que fica aos pés do mar
café com gosto de maresia
há um mapa-múndi emoldurado
este agora será o meu lugar favorito
no mundo

café?
perguntou o atendente
com açúcar, por favor
minha vó sempre dizia
de amarga já basta a vida
desde então aprecio o doce
no livro leio um poema pesado
sobre as horas de terror da menina
quando num sono profundo
se afogou em um lago
penso que meu medo da morte
vai apenas por um caminho
meu corpo cabe no mar

no poema 56
descubro que o nome da menininha
é bebete
que em algum língua
quer dizer estrelinhas de Deus
constelação de Deus

leio a palavra amor
grifo de amarelo-limão
e olho você nos olhos
você me olha
como quem desenha
sobre as minhas pupilas
observo os movimentos
das tuas mãos
e queria dizer que
acabou de acontecer
o amor à primeira vista
e parece que eu sinto o céu
se eu fechar os olhos
vejo um barco navegando
sobre os raios do sol
queria derramar café
queria ser chuva e chover
tratar de algum assunto contigo
falar sobre política
ou sobre a greve dos maquinistas
na cidade de ohio
a verdade é que eu não sei
se em ohio os maquinistas
estão em greve
tem maquinistas em ohio?
foi a pergunta mais idiota
para um amor à primeira vista
o primeiro amor à primeira vistavocê me deixou em silêncio
e disse que era melhor
a gente falar sobre as ondas
gigantescas do mar
e o coração do oceano

de repente
você reparou no livro
de poemas sobre a menina
e o leão
e falou que amava poesia
e música francesa
eu também adoro música francesa

imaginei
que poderíamos a qualquer hora
fazer um piquenique
desses bem clichês
com cesta e toalha vermelha
na beira do sena
e um tocador de acordeon
vinha e tocava la vie en rose
e a gente dançaria
e tocaríamos os nossos pés
nas hélices de algum helicóptero

amar é isto?
que coisa é esta?
eu te vi a 5 minutos atrás
e já quero uma vida contigo
um gato chamado senhor dos bigodes
viajar pelos lugares do mundo
cruzar todas as linhas
do mapa-múndi do café début

o teu nome eu deixei
anotado sobre o poema 78
que se chama terra
o teu nome eu grifei de azul
palavra de poema
minha flor na boca
e antes de morrer
quero morrer de amor
e ser jogado no mar.

Pedro Stkls

heart of the sea

se a gente se afogasse agora em pleno atlântico
o nosso amor subiria até a superfície
sairia de nossos corpos e nadaria até a praia
no meio do azul veria nós de olhos fechados
eu saberia também ali de todas as flores
que você guardou nos pulmões
todas viriam a superfície
para saber como é o instante entre dois azuis
azul ainda é a nossa cor preferida
eu ainda prefiro casar com você
toda vez que o domingo faz frio ou calor
agora é hora de lhe contar sobre todas as saudades
as que arderam como pôr do sol
as que fizeram nó como os cabelos
as que abriram uma cratera no estômago
e deixaram escapar todas aquelas borboletas do primeiro encontro
as que não me fizeram fazer outra coisa
apenas imaginar se você havia chegado em casa
e sem querer abriu um um livro de poesia
e pensou: “ele está aqui esta noite”
agora estão boiando todos os sentimentos que carreguei
e mesmo que você não possa tocá-los
agora estão aí todas as certezas do nosso romance
aqueles sonhos aqueles dias aqueles sorrisos
meu amor, não ria se descobrir que fui um menino subindo em um balão
dentro de uma caixinha azul para não esquecer o seu mundo
ainda que todos os poemas que escrevi para sua ausência
subam para a costa do mar
não pense que vivi para contar toda sua distância
a sua cartografia de imagens dos lugares em que passou as tardes
mas a saudade tem uma tesoura que corta asas
que quando percebemos estamos no lodo da monstruosidade de uma espera
pulamos de muitos abismos sem ao menos mover os pés
o que você me mostraria se a gente se afogasse agora?
já me valeria saber que seu coração é azul de verdade
pra quantas estrelas deu o meu nome
acrescentando apenas o seu sobrenome
e todas elas seriam nossa algum dia
em constelações como aquarius cetus gemini ou a ursa maior
quantas vezes preparou o almoço o lugar na mesa
quantas vezes aparou a chuva e bebeu
imaginando que eu havia virado um anjo
quantas vezes se misturou com a solidão olhando para o teto
a gente se mistura muitas vezes com a solidão
a gente muitas vezes não consegue encontrar o caminho da volta
a gente muitas vezes volta e ainda fica faltando um pedaço
a solidão é pesada e afundaria feito âncora
o mar viraria vermelho se todos os nossos beijos submergissem?
se a gente se afogasse agora em pleno atlântico
para onde iriam os nossos corpos de quem amou demais?

Pedro Stkls

chá para curar saudade

minha vó nunca me disse
como se cura saudade
se com jucá ou agrião
a vó só disse que em noite de lua
saudade faz trepadeira no coração
e deita, rola e fica
toma banho com alfazema
te acalma! aquieta!
alecrim te faria sorrir?
me perguntou a vó
quando viu a saudade que fazia
num dia de chuva desavisada
e parecia que gotejava
queria passar folha de arnica
pra curar esse buraco que abriu
de saudade escavada
usa babosa, meu filho
ela é boa pra crescer alegria
vai distrair essa saudade toda
vai parar de derramar
essa saudade que te alaga
essa saudade que te deixa na beira
essa saudade que bubuia
calêndula!
é mal-me-quer que cicatriza
ajuda a fechar feridas
essa saudade é isso, vó
uma ferida aberta
camomila, canela, capim-limão
sei de cada uma
passei todas sobre essa saudade
fiz banho, fiz reza
passa carqueja, meu filho!
passa cáscara-sagrada
passa que passa
essa saudade que sentes
essa coisa dolorida sobre o corpo
cura com erva-cidreira
ou cura com erva-doce
eucalipto dizem que cura
na foz do rio pedreira
tinha uma moça chamada Deulires
que sofria assim de saudade
a benzedeira receitou
hortelã-pimenta, laranja-da-terra,
macela-do-campo e pata-de-vaca
massera tudo e deixa ficar ali
agindo sobre a saudade
faz isso, meu filho
vó, saudade é bicho do mato
é arredia, é maresia
fiz um chá de grelo de goiabeira
vai passar saudade!
passa, saudade!
vó, me conta uma história
me fala da última vez
que meu avô tocou o sol?
vó, a saudade ta me mundiando de novo
ela tem o nome do meu avô
josé das nuvens
josé das neves
josé saudade

Pedro Stkls

a.m. fotografia

hoje ela fotografou galhos secos
e a cruz do mundo
entre o azul branco das nuvens
e a umidade da temperatura dos seus olhos
tem um mar de paisagens sob os cílios
e seu nome significa
barquinho adormecido no rio
onde há sempre uma colônia de sol
navegando no miolo da noite
pode ser que um dia ela fotografe
o esmaecer da chuva pelo vidro do carro
e cante quem sabe cante para a chuva passar depressa
e a legenda será: ‘fique
avisada… o carnaval é todo
meu e teu entre a flor de muçambe
e a flor do abacateiro’
este poema é sobre a fotografia
onde se assobia o amor.

Pedro Stkls

as cidades, as chuvas

choveu nas tuas duas cidades
de uma ponta a outra
queria ter estado com todas
as coisas que molharam
com cada cinematografia
astro meteorológica
uma pena foi não saber
que a previsão era de chuva
nas cidades que você fotógrafa
já é hora de decretar o fim do verão
das flores secas
da rachadura das terras dos rios
e um monte de coisas empoeiradas
de quantos em quantos séculos
chove nas tuas duas cidades
a primeira vez foi na aparição de Dalila
a segunda vez foi na existência dos anjos
a terceira vez você estava na cidade sertão
enquanto o rio-mar se molhava
pensei em escrever uma carta
e te contar como a cidade dançou na chuva
como no vidro do carro
a chuva desenhou uma alcatéia
e de repente já era uma cantoria de grilos
a gente nunca sabe qual desenho
a chuva pinga no vidro
choveu nas tuas duas cidades
e um passarinho se molhou
quando atravessou o céu.

Pedro Stkls

direitos universais

se
por acidente o céu chorar
nas roupas penduradas
no varal esticado no quintal
depois de um dia solar
não há motivo pra se
deixar franzir a testa ou
bufar de raiva
é do direito das roupas
parágrafo primeiro dos
direitos universais das roupas:
“tomar banho de chuva.”

Pedro Stkls