
Poetas Azuis

por Pedro Stkls



Pedro Stkls


num domingo inesperado, daqueles que costumam carregar um certo silêncio solitário, fui surpreendido pela alegria de acompanhar o trabalho incrível que meu querido amigo Renildo Sá está iniciando. ele me enviou algumas peças dessa exposição que, por enquanto, acontece de forma virtual, alcançando apenas os amigos mais próximos. fiquei imensamente feliz em presenciar esse nascimento na arte contemporânea — há ali um toque de pop art, uma força bonita que explode em cada detalhe. espero que vocês também sintam essa energia tanto quanto eu.

meu coração é uma palavra
que se criou na palavra rio
quando pensei que não tinha
quando imaginei outro tempo
que não era poesia em seu modo
eu queria empurrar com a barriga
uma coisa rasa e silenciosa
não parecia em nada com a aventura
que é atravessar o rio de canoa
sabe quando a gente põe
as antenas de uma formiga
sobre as costelas de um besouro
ou quando sobre o exoesqueleto
plantamos uma flor cambará?
parece com o desequilíbrio
me dei conta o que era
quando vovô voltou da pescaria.

escrevi um livro ensolarado sobre as minhas memórias poéticas. verão é sobre uma estação que mora nas melhores histórias da minha vida. espero que vocês se sintam aquecidos por essas palavras. eu espero que vocês me escrevam e me digam como se comportou o sorriso de vocês pós esse verão.

agora eu divido com a poeta e amiga áquila emanuelle a alegria de entrevistar um elenco bonito de poetas (poetas da melhor qualidade). a poesia é pop – live poética é uma parceria com a duas telas produções. todas as entrevistas falam do amor pela poesia.

tive a alegria de ter alguns dos meus poemas publicados na mallarmargens revista de poesia e arte contemporânea – a poesia me levando aos caminhos mais bonitos.
escrevo de uma terra mágica
e de um céu tremendamente vermelho
onde a cidade parece dormir nos braços
dos seus habitantes e o mar
o mar é aquele mesmo filho da mãe
de azul e língua de sal
escrevo com as mãos cheias de saudade
os olhos cheios de imagens
quando fecho os olhos eu posso ver
uma garotinha e seu balão amarelo
de repente o balão escapuliu
e no céu o balão figurava o sol
e eu pensei que aquele sol
podia iluminar a tua cabeça
que poderia estar pensando
em um estradinha de chão
que nos levasse para o outro mundo
na parte sul da cidade
tem uma lojinha de gatos
e acho que o teu gato
o senhor dos bigodes
poderia me odiar mas
eu comprei umas botinhas pra ele
e sabe ele poderia agora ser
o senhor dos bigodes de botas
o clima aqui é ameno
meu peito é quente
e eu acendo a lareira
quando a friagem da noite
deixa o piso como se eu
tivesse derramado um pouco de vinho
talvez porque eu pensei
tanto sobre os dias no café début
que misturei muitos líquidos
minhas águas meus goles de vinho
minhas tintas de canetas
aqui o dia tem uma duração
como a duração das estrelas
na verdade como o piscar das estrelas
tudo é um piscar e quando se vê
tudo mudou como aquele livro
sobre as viagens marinhas
do Pierre San que eu guardo
a sete chaves porque você
roubou da biblioteca de idaho
apenas para o meu consolo
eu descobri que naquele livro
tem uma passagem secreta
para um lugar que eu não ouso
te dizer porque eu quero que você
descubra e sinta o que senti
agora está fazendo um pouco de noite
e eu fico pensando que eu queria
tomar aquele café que vem com gosto de maresia
eu queria que você pudesse ver
o que vejo agora
uma passagem secreta
onde o amor não vence
os que se apaixonam de poesia.
Pedro Stkls
ah! daqui o amor
é uma coisa tão urgente
na boca da noite
ele me beija mururés
ah! se a lamparina falasse
como o giral ressoa
ecoa e grita as maravilhas
que a gente desenha
eu cuido do peixe do almoço
ele me pega
e a gente se perde no pitiú
se lambusa
abusa de mim, joão
na canoa eu nunca fiz
na balançar da rede
foi como mergulhar na pororoca
você me tocava naquela hora
não importava que hora o mundo seguia
já era preamar dentro de mim
eu te quis como a bandaia
aquela altura eu já era a tua iara
caboca das águas
voz doce no pé do teu ouvido
meu joão menino,
assobia aquelas coisas todas
outra vez?
aquela gritaria de periquitos
a vida era aquilo
amor que dura e cura
qualquer falta de riso
você me mundiando
e eu me achando
a deusa a estrela rara
e o giral, joão?
e a rede, joão?
que horas tu você volta
com o açaí?
eu nunca comi amor com açaí
como será, joão?
vumbora?
Pedro Stkls
Augustus
o fato é que estou disposto
a mudar o rumo das coisas
as pedrinhas enigmáticas do
último planeta em que você habitou
a luz do sol que fazia sobre
o vermelho arco-íris que
desenhou o caminho do pomar
quando penso em ti
me atraso na busca das estrelas
e começo um ritual místico
que já atravessou o mar e
a sombra de muitos exílios
na parte norte do mundo
nunca me dei por vencido
há sempre um traço teu
que me lembra uma fogueira
uma pétala de rosa que marca
a página do livro de poemas
sobre a fúria da beleza
há sempre um lugar teu
que me lembra a forma
como chegava o café na tua boca
e como piscava o teu olho
e como a cor ia mudando
já imaginei uma ilha
sem terra apenas esculpida
de gelo e dizer
este é teu presente
por tantos dias tomando
o caminho inverso
já fiz mil origamis
com as partículas de poesia
do mapa-múndi que
compactuamos no tempo infinito
quando não acreditávamos em morte
ou em silêncio
eu comi o seu amor Augustus
pra ficar aqui dentro
como uma âncora
correspondendo ao eterno
mergulhado no meu líquido
e isto inclui meu coração
aquele que você Augustus
nunca encontrou a saída
pela primeira vez
não sei como acabar o teu poema
se com verão face passado
ou qualquer barulho que venha de fora
é muito difícil terminar um poema
que não sabe nunca
abraçar longamente.
Pedro Stkls